Bibliotecas são Comunidades no Goodreads

O Bibliotecas são Comunidades decidiu expandir-se para outras plataformas virtuais, começando pelo Goodreads. A partir de agora, podem aconselhar-nos livros que já leram ou que desejam ler; raridades, curiosidades ou mesmo alguns clássicos que nos escaparam. Podem deixar-nos as vossas proposições de leitura aqui; serão todas incluídas no nosso perfil.

O que é pretendido com esta iniciativa é partilhar e expandir o nosso gosto pela leitura.

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“O [des]crédito da função”, por Daniel Gonçalves

O co-autor deste blog – Bibliotecas são Comunidades – descreve-nos neste texto a visão que a maior parte das pessoas têm em relação aos bibliotecários, demonstrando-nos ao mesmo tempo o que pode ser feito para esclarecer as funções que estes desempenham. Este texto está a ser publicado no dia em que o seu autor decidiu deixar Portugal para encontrar novos horizontes e novos desafios.

Quase sempre que refiro que sou Bibliotecário recebo como resposta um Ah…, seguindo-se a reconfortante pergunta: mas é preciso curso? Num dia favorável, ainda posso estar sujeito a ouvir – esta é a minha pergunta favorita – deves adorar ler, não é? Nesta última pergunta raramente consigo evitar a gargalhada; ainda não consegui foi descobrir se pela “inocência” da pergunta, ou se por ser mesmo verdade que gosto de ler.

O que realmente interessa retirar destas primeiras linhas é que se torna embaraçoso, em 99% das vezes, referir que sou Bibliotecário. O embaraço, entenda-se, não é meu e sim de quem pergunta, até porque nunca me sentiria embaraçado de algo que sinto orgulho – com alguma vaidade – em ser. Quem me questiona sente-se naturalmente embaraçado porque não compreende a função de um bibliotecário na comunidade a que serve. Por exemplo, se pensarmos na advocacia, creio que é consensual que a maioria das pessoas saiba minimamente que papel desempenha um advogado na sociedade. Se as pessoas, na sua generalidade, não entendem que é necessário estudar entre 3 a 5 anos para se desempenhar funções numa biblioteca, então algum motivo terá que haver. Acredito que é importante ter consciência de que a responsabilidade de contrariar e, especialmente, de não justificar este descrédito profissional, será sempre “só” nossa.

Sempre que sou confrontado com este tipo de perguntas, procuro encontrar nos meus pensamentos uma explicação que justifique o descrédito da nossa profissão por parte da nossa sociedade. Na minha opinião, existe um problema óbvio que o justifica: o desconhecimento das enormes potencialidades que residem nas competências profissionais dos bibliotecários, independentemente do contexto em que estas são aplicadas. Este é um problema que condiciona o reconhecimento da nossa profissão e que se deve, certamente, a inúmeros fatores que exigem estudo, reflexão e debate entre os pares. Contudo, julgo que será possível inverter este ciclo de descrédito se trabalharmos no sentido de potencializar essas competências para além do universo tradicional das bibliotecas, arquivos e centros de documentação. Eu acredito que não é a biblioteca que faz o bibliotecário, na mesma proporção que a coleção não faz uma biblioteca, até porque uma biblioteca sem livros pode perfeitamente prestar um serviço de excelência e de referência.

Quando me questionam se é necessário frequentar o ensino superior para ser Bibliotecário, eu respondo sempre, e de forma determinada que sim. Depois, tenho por hábito de referir a figura do Bibliotecário Clínico, explicando porque razão muitos diagnósticos médicos se fundamentam na informação credível e fidedigna, que é recuperada por estes profissionais. Geralmente, quando termino esta explicação, o desconforto desaparece e dá lugar ao interesse e à curiosidade, talvez porque as pessoas reconhecem nessa explicação a utilidade do nosso trabalho, mesmo que seja só nessa área específica.

É um facto que nós devemos dominar os conceitos de catalogação, indexação e classificação, no entanto, de nada serve saber catalogar e indexar se os nossos utilizadores não consultam os instrumentos de recuperação da informação, que são o produto final dessas tarefas. De nada nos serve partilhar frases em redes sociais, como: “Google can bring you back 100.000 answers. A librarian can bring you back the right one.” Esta frase, ao que consta da autoria do escritor Neil Gaiman, é no mínimo um pouco ousada e espelha perfeitamente o desconforto que alguns bibliotecários demonstram face às ferramentas digitais. Ora vejamos, se um utilizador me perguntasse: quanto é 74983*(123/45)? Eu teria que responder: não faço a mínima ideia. Já o Google responderia numa questão de segundos que o resultado é 204953,53333 (e sim, eu fiz a conta no Google). Outra expressão que não me seduz minimamente é a de que nós somos “facilitadores”, ou pior, a “ponte” entre o utilizador e o conhecimento. Não consigo concordar com estas expressões, pois considero que esse papel está destinado aos instrumentos de recuperação de informação, sejam eles produzidos por nós ou não. Vejamos, quando um bibliotecário cataloga materiais para inserir num catálogo OPAC, ele está a contribuir para a construção de um instrumento que facilita o acesso ao conhecimento. O grande problema é que muitos utilizadores preferem os motores de busca e web sites em detrimento destes instrumentos, o que me leva a considerar que este assunto deve também ser alvo de estudo, reflexão e debate pelos pares. Posto isto, podemos tomar uma de duas atitudes: ou perpetuamos uma posição de desconforto com motores de busca e outras ferramentas digitais, ou marcamos uma presença forte na web de forma definitiva. Eu pessoalmente prefiro a segunda, porque acredito que nós devemos marcar presença onde estão os que servimos, e acredito também que nós estamos em boa posição para construir essas “pontes” de acesso ao conhecimento.

Os bibliotecários Lei Wang e Holly Grosseta Nardini, da Harvey Cushing and John Hay Whitney Medical Library, são um bom exemplo de como os nossos conhecimentos podem ser aplicados para benefício das nossas comunidades. Estes bibliotecários desenvolveram uma ferramenta designada Yale Mesh Analyser, que constitui efectivamente uma ponte que facilita o acesso ao conhecimento científico, neste caso na área da saúde. Esta ferramenta, que é uma grelha de análise de descritores desta área (Mesh Therms), permite aos estudantes identificar “the reason why some known relevant articles are missing in the initial search result set, and serves as a “scoping search” tool to help identify potential new search terms and phrases.”1 Através dela, os estudantes conseguem garantir que não existe ruído ou omissão na sua estratégia de pesquisa, garantindo desta forma que não lhes escapa literatura relevante para o desenvolvimento das suas investigações. E sabem que mais? Esta ferramenta está disponível na web, é só digitar no Google a expressão: “yale mesh analyzer”, ou para os fãs mais acérrimos dos operadores booleanos : “yale AND mesh AND analyser”.

Como refere David R Lankes: “to be a librarian is not to be neutral, or passive, or waiting for a question. It is to be a radical positive change agent within your community.” Tomemos exemplo nestas palavras porque a mudança é sempre uma certeza, cabe-nos a nós decidir se queremos, ou não, ser o seu principal agente.

Texto de Daniel Gonçalves
Revisão do texto por David Gonçalves

 

Bibliotecas e comunidades: 65 anos de interação”, por Paulo Silva

Paulo Silva nasceu em Aveiro em 1981. Pensava que ia seguir história mas deu por si a estudar Ciência da Informação. Tirou o mestrado em Coimbra e finalmente conseguiu fazer o que gosta: ser investigador e trabalhar numa biblioteca. Partilha aqui connosco uma pequena reflexão sobre a evolução das bibliotecas com as suas respectivas comunidades.

No largo da igreja da aldeia, um grupo de crianças e adolescentes aguarda impacientemente a chegada de uma carrinha cor-de-laranja. O barulho do motor da velhinha Citröen começa a ouvir-se ao longe para gáudio dos miúdos, que, entretanto, se tornaram estranhamente irrequietos. Afinal de contas, a visita mensal da biblioteca itinerante era a única forma que tinham de conhecer novos mundos. Assim que a porta da velhinha carrinha abria, precipitavam-se todos lá para dentro na ânsia de escolher um novo livro, de encontrar uma nova história que os fizesse sonhar com o que até então, era desconhecido. Continue reading “Bibliotecas e comunidades: 65 anos de interação”, por Paulo Silva”

Nem só de livros se faz uma biblioteca II

Voltei a trabalhar numa biblioteca desde o passado mês de Agosto. As minhas principais tarefas são: abrir e fechar a biblioteca, atender o público, inscrever os novos membros e arrumar os livros que foram retirados das suas respectivas estantes. Habituei-me rapidamente a executar estas funções, visto que não são diferentes relativamente a outras bibliotecas onde trabalhei. Continue reading “Nem só de livros se faz uma biblioteca II”

“Biblioteca de rótulos”, por Júlio Roldão

Júlio Roldão nasceu no Porto em 1953, onde vive. Foi para Coimbra em 1971 para aprender Direito mas acabou a fazer Teatro e a fazer-se jornalista. Foi repórter, redactor e editor num Jornal da Imprensa escrita durante 28 anos. Foi director criativo numa empresa de conteúdos durante oito anos. É jornalista profissional.

Aceitou o nosso desafio de escrever um pequeno texto exclusivamente para o nosso blog, em que o tema proposto foi uma biblioteca de rótulos de vinho. Aqui está o resultado.

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O Super Bibliotecário!

Na tua opinião, quais seriam os super poderes do Super Bibliotecário?

Esta foi a pergunta que o Bibliotecas são Comunidades fez a Alexandra Vangsnes* – ilustradora americana e assistente de biblioteca residente em Paris. Respondeu-nos prontamente, com uma ilustração. Eis o resultado!

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E para vocês, quais seriam os super poderes do Super Bibliotecário?

*Quando não está a desenhar ou a ler, Alexandra Vangsnes gosta de tricotar, bordar, dançar ballet, jogar tarot, ouvir música folk, cozinhar, viajar e beber cerveja. Recentemente, abriu uma loja em linha – alexandravangsnes.etsy.com – onde podem encontrar/comprar os seus produtos.

“Sabino e o bibliotecário pessimista”, por Nuno Gomes Garcia

Nuno Gomes Garcia (Matosinhos, 1978), finalista do Prémio Leya em 2014 com o seu romance O Dia em Que o Sol Se Apagou, aceitou o desafio de escrever um pequeno spin-off da sua primeira obra, O Soldado Sabino. A história de Sabino – um homem amaldiçoado – é construída e conjugada com momentos históricos com os quais a vida da personagem se cruza: o regicídio em Lisboa, o 5 de Outubro, a preparação do Corpo Expedicionário Português em Tancos, a participação portuguesa na Flandres e a batalha de La Lys.

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