Nem só de livros se faz uma biblioteca II

Voltei a trabalhar numa biblioteca desde o passado mês de Agosto. As minhas principais tarefas são: abrir e fechar a biblioteca, atender o público, inscrever os novos membros e arrumar os livros que foram retirados das suas respectivas estantes. Habituei-me rapidamente a executar estas funções, visto que não são diferentes relativamente a outras bibliotecas onde trabalhei.

À medida que o tempo foi passando, dei-me conta de que já tinha memorizado a cara de uma boa parte dos membros da biblioteca. Mais, quando vêm ter comigo, já não é só para requisitar um livro ou para reservar uma das salas de estudo; vêm-me falar de um filme que viram no cinema, de como o dia lhes correu, perguntam-me o que ando a ler… Ao aperceber-me desta realidade, senti-me feliz e integrado no meu ambiente de trabalho. Mas o melhor ainda estaria para vir…

Há umas semanas atrás, uma utilizadora da biblioteca dirigiu-se a mim e, muito embaraçada, perguntou-me se a podia ajudar. Sem saber ainda o motivo de tal embaraço, respondi-lhe prontamente que sim. Ao ouvir a minha resposta, a senhora começou a remexer dentro do seu saco, retirando um telemóvel que pousou na minha secretária. “Sabe mexer neste tipo de maquinetas?”, pergunta-me a senhora. “Sim”, respondi. “Do que é que precisa?” “Preciso que me explique como isto funciona.” Levantei-me da secretária e convidei-a a sentar-se num dos confortáveis cadeirões da biblioteca. Passada uma hora de demonstrações e explicações, a senhora já era capaz de introduzir números na agenda do telemóvel, escrever mensagens e fazer chamadas. O embaraço tinha-se transformado em pura felicidade. No momento em que me preparava para regressar às minhas tarefas habituais, a senhora, ainda sentada no cadeirão, perguntou-me “Quais são os chocolates de que mais gosta?” A pergunta ainda ecoava no ar, quando subitamente vieram-me à memória as palavras do colega bibliotecário Nuno Marçal: “Uma Biblioteca é e tem de ser muito mais que apenas e só livros”. Respondi à senhora que gosto de todo o tipo de chocolates e, aquando da sua mais recente visita (alguns dias mais tarde), a nova especialista em telemóveis presenteou-me com uma bela tablete de chocolate. Foi a melhor “recompensa” que recebi enquanto funcionário de uma biblioteca até à data.

Recordo agora, enquanto redijo este texto, as palavras de João Guerreiro, outro colega de profissão e um grande amigo, que afirma no texto que redigiu exclusivamente para o blog Bibliotecas são Comunidades o seguinte: “Assim, sem todas as certezas, avanço uma possível função das bibliotecas: ser um espaço de acesso à cultura (num sentido lato) com a intenção de permitir aos cidadãos conhecer outras realidades e criar uma sociedade mais aberta”. A biblioteca onde trabalho denomina-se American Library in Paris (Biblioteca Americana de Paris) e garanto-vos que é uma das bibliotecas mais multicultural da capital francesa. Os profissionais que nela operam apresentam diversas nacionalidades: cidadãos estadunidenses, franceses, escoceses, croatas, irlandeses e portugueses. Se considerarmos os mais de três mil membros subscritos, acrescem mais de vinte nacionalidades a este espaço, o que me leva a considerar que cada dia de trabalho é uma nova aprendizagem, num ambiente multicultural, de respeito e admiração pelos outros, aprendizagem essa que transcende as palavras que estão escritas nos livros.

É extremamente importante relembrar-nos que as próprias pessoas, com os seus passados e experiências de vida, são elas próprias bibliotecas!

.

Texto de David Gonçalves
Revisão do texto por Daniel Gonçalves

Anúncios

2 pensamentos sobre “Nem só de livros se faz uma biblioteca II

  1. Sempre disse…. Não tenho perfil de bibliotecária, falo pelos cotovelos!!
    Quem vem ao meu local de trabalho, sabe que esta é uma biblioteca especializada na área das comunicações e, como tal também os investigadores são únicos.
    O que é certo é que entram desconhecidos e saem com uma amizade feita, de um simples utilizador a um amigo com quem partilho interesses via facebook ou, uma bolseira sueca que passou o mês de Agosto fechada em Lisboa dentro deste espaço porque o ar condicionado a ajudava estudar… ou vou a um bailado com uma estudante de Erasmus com quem privei uns biscoitos anteriormente, (chiuuu… mesmo dentro da Biblioteca)!!!!!!
    Pode ser que um dia seja diferente, mas tenho dúvidas!!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s