“Biblioteca de rótulos”, por Júlio Roldão

Júlio Roldão nasceu no Porto em 1953, onde vive. Foi para Coimbra em 1971 para aprender Direito mas acabou a fazer Teatro e a fazer-se jornalista. Foi repórter, redactor e editor num Jornal da Imprensa escrita durante 28 anos. Foi director criativo numa empresa de conteúdos durante oito anos. É jornalista profissional.

Aceitou o nosso desafio de escrever um pequeno texto exclusivamente para o nosso blog, em que o tema proposto foi uma biblioteca de rótulos de vinho. Aqui está o resultado.

Biblioteca de rótulos
Há livros diVinos. Juntos formam uma daquelas bibliotecas admiráveis de rotuladas raridades. DiVino é também aquele que sacia a sua sede, apreciando todo o saber que brota quando abrimos uma obra dessas. Produto do homem.
As Vinhas da Ira é um desses livros diVinos. Outro, da colheita de 1953, a do ano em que nasci, ė a Vindima de Sangue, terceira obra da trilogia ciclo do port wine de Alves Redol – os outros dois são Horizonte Cerrado e Os Homens e as Sombras.
Miguel Torga também escolheu o Douro Vinhateiro para tema do primeiro romance – Vindima. E na edição que li, a nona, o escritor diz, em carta prefácio ao leitor, que à data dessa reedição já não (d)escreveria a região assim. As condições de vida melhoraram relativamente à realidade dos anos quarenta, quando escreveu a Vindima.
Há dias, numa tertúlia de amigos que amiúde discutem política e literatura em almoços cuidados, bebeu-se o Douro preferido de Miguel Torga para acompanhar  caça, além de uma reserva da Bairrada, ambos trazidos, pelo tertuliano Jorge Castilho.
Também bebemos uma colheita seleccionada da Adega de Palmela, engarrafada, a mando da GreenMedia, sob o sugestivo nome Jornalista e oferecida pelo tertuliano Domingos de Andrade. Ao todo três rótulos dignos das perdizes que João Baptista de Magalhães, outro dos tertulianos, mestre e caçador, oferecera.
Eu e Alfredo Maia, os tertulianos que falta citar, transformamos os rótulos daquelas garrafas em marcadores de livros e outras aguarelas, devidamente carimbadas com um pequeno poema de minha autoria, quase alcoólico, que reza assim – rótulos de vinhos // bebidos com os amigos // e outros poemas.
O difícil desafio de revelar uma biblioteca de rótulos de vinhos já leva cinco livros e três colheitas. Mas é tarefa que dá sede, o que justifica um bruto, talvez casta baga, método tradicional. Para beber com os amigos.

Texto de Júlio Roldão

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