“Sabino e o bibliotecário pessimista”, por Nuno Gomes Garcia

Nuno Gomes Garcia (Matosinhos, 1978), finalista do Prémio Leya em 2014 com o seu romance O Dia em Que o Sol Se Apagou, aceitou o desafio de escrever um pequeno spin-off da sua primeira obra, O Soldado Sabino. A história de Sabino – um homem amaldiçoado – é construída e conjugada com momentos históricos com os quais a vida da personagem se cruza: o regicídio em Lisboa, o 5 de Outubro, a preparação do Corpo Expedicionário Português em Tancos, a participação portuguesa na Flandres e a batalha de La Lys.

“Sabino e o bibliotecário pessimista”

«Artur Portugal. Causa da morte: tuberculose e profunda desilusão».

– Continuo a achar que não é o bom momento para fazermos uma revolução.
O bom primo pessimista, sentado num banco desconchavado que estava encostado à parede, abriu a reunião para expressar a sua bem conhecida descrença, e fê-lo, tal era o usual, sem sequer tirar o nariz de dentro do costumeiro livro embrulhado no habitual papel mata-borrão. E, como sempre acontecia, por ser prática antiga e geral, ninguém lhe prestou atenção.
Tout est nécessairement pour la meilleure fin – disse o bom primo Pangloss, aproveitando para lançar a sua tradicional tirada. Não fosse o mundo acabar naquele instante, ele era, de acordo com a boa rotina, sempre o segundo a abrir a boca nos saraus deliberativos da Carbonária que decorriam no Centro Republicano de Santa Isabel.
Bocejei, apostando com a minha sombra qual seria o próximo a falar. Ganhámos os dois a parada e, ainda eu me congratulava em segredo, ouviu-se a voz do bom primo Bonaparte, o quarto a falar, sempre agarrado à sua Parabellum.
– Se tivéssemos todos uma pistolinha como esta, poderíamos implantar a república agora mesmo.
E quando o quinto bom primo se preparava para anunciar pela enésima vez que talvez conseguisse arranjar uma trintena daquelas pistolinhas junto do tio que lutara em África contra o Gungunhana e que era armeiro no Chiado, eu resolvi gerar o caos e perguntei:
– Que livro andas a ler, bom primo?
Todos me olharam de sorriso retorcido, visto que era preciso ser muito distraído para não saber que livro andava a ler o bom primo pessimista.
Ele deixou caiar as pálpebras três vezes, perturbado por tamanha reviravolta no guião daquela sessão de trabalho e respondeu no melhor francês de Montmartre:
– “Les Précieuses Ridicules”.
E eis os porquês de chamarmos Molière ao bom primo pessimista.

Quando saímos da reunião, depois de adiarmos a revolução lá para depois do verão, em setembro ou outubro; é que se mete o calor e a malta fica logo esgotada fisicamente, acompanhei o bom primo Molière até ao bairro onde vivia, desejoso de saber qual o bizarro fenómeno cosmológico que conduzia um pessimista à leitura obsessiva de comédias.
Herdada da família que fizera fortuna com a ferrovia, a casa de três sobrados com a fachada coberta de azulejos não era tanto para ele a habitar, mas sim para dar guarida aos livros que ia entesourando. Molière, bibliotecário por convicção e ricaço de profissão, possuía o sobrolho carregado pelo fardo de tudo o que já tinha lido, fazendo-me lembrar João Sabino, um vendedor de livros que também era meu pai e que morrera no Terreiro do Paço no dia do regicídio. O peso da leitura (aprendera eu desde muito novo) pesava tanto nos ombros de um bom leitor como uma carga de oitenta quilos no lombo de um estivador.
– Eu quero que o povo saiba ler e que o país se cubra de bibliotecas – disse Molière. – Só os livros nos poderão matar a fome.
E eu pensei que só um burguês misógino como ele, que nunca percorrera as ruas de Alfama numa tarde tormentosa de janeiro nem fodera uma mulher numa manhã primaveril, poderia considerar que só os livros nos poderão matar a fome.

A casa do bom primo pessimista, que ele transformara em biblioteca popular depois da revolução, pegou fogo no dia de todos os santos de mil novecentos e dezasseis, queimando-lhe todos os livros, incluindo as comédias de Molière, que ele continuara a ler todos os dias da mesma maneira que uma freira comprometida lê os salmos preferidos. As labaredas levaram consigo os livros que a fortuna do bom primo pôde comprar até ao desaparecimento do último tostão. Houve quem dissesse que aquilo parecia uma fogueira da Inquisição e houve quem tivesse visto o fumo do incêndio em terras tão distantes como Benavente ou Salvaterra.
Os únicos livros que se salvaram foram aqueles que eu nunca cheguei a devolver à biblioteca do bom primo Molière.
Fui procurá-lo com os cinco livros debaixo do braço, entre os quais um Molière sem graça nenhuma, e encontrei-o magro como uma ratazana velha, numa mesa isolada, atirada para o canto do tasco do seu bairro, a beber vinho de uma tigela. Ali, por entre aquelas quatro paredes sombrias, ele sabia que jamais correria o risco de encontrar uma mulher, cuja existência sempre lhe causara a maior das aversões. Pedi uma posta de bacalhau frito ao taberneiro.
– Então, e tu, vais mesmo para a guerra? – Perguntou-me o bom primo Molière.
– Sim, vou servir a república.
– Não será antes a república a servir-se de ti?
– Seja como for, tenho mesmo de ir. A guerra é-me útil.
E pensei em todos aqueles soldados de carnes tenras prestes a morrer deixados para ali à mão de semear.
– Bem, tu lá sabes. Eu tenho a certeza de que o exército da república vai fracassar.

Um ataque de tosse, que o deverá ter abalado até aos alicerces e que culminou na cuspidela para o chão de um coágulo de sangue enfatizado por um acho que estou fodido dos pulmões, interrompeu a nossa conversa.
Então, achei por bem entregar-lhe os cinco livros que pertenciam ao espólio da biblioteca ardida. Ele, com o rosto tomado por uma cor púrpura, folheou-os sem ponta de interesse e desenhou mesmo um esgar de nojo no rosto quando leu a primeira página do “Le Misanthrope”.
Qu’est-ce donc? Qu’avez-vous?
Tornou-se claro que o velho dramaturgo francês era como se tivesse morto para ele. Mais uma confirmação do velho axioma que diz que o amor é o primeiro passo para o ódio. Ele devolveu-me os livros num movimento brusco, como se eles fossem a fonte de uma qualquer epidemia de varíola.
– Não os queres? – Perguntei surpreendido. – São teus.
Ele encolheu-se ao canto
– Estou a morrer por causa dos livros.
– Eles não matam ninguém.
– Desperdicei a minha vida a lê-los – disse-me num fio de voz. – Agora, tudo é cinza.
– As tuas armas são os livros, foi o que sempre afirmaste.
– Sabino, o meu arsenal já não existe.
Olhei para a porta aberta e vi, do outro lado da rua, os escombros calcinados da sua biblioteca popular.
– Fica ao menos com um destes para matares o tempo – retorqui. – Sempre podes ler qualquer coisa enquanto estás vivo.
Ele ponderou por um instante, a ansiedade a cintilar-lhe nos olhos normalmente mortiços. O mesmo brilho que habita dentro de um opiómano quando se depara com um cachimbo fumegante.
– Vá – disse por fim – fico com este para combater a solidão das noites frias.
Ouvi o sino da igreja a dar as horas e levantei-me.
– Tenho de ir, vou chegar atrasado à morgue.
Saí porta fora e deixei o primo pessimista mergulhado na leitura do “L’onanisme, causes, dangers et inconvénients pour les individus, la famille et la société”. Achei estranho aquele seu súbito interesse pela ciência médica, mas mais valia tarde do que nunca.

Dois dias depois de com ele ter confraternizado no tasco – a onze de dezembro de mil novecentos e dezasseis – autopsiei o bom primo Molière na mesa de mármore da morgue.
Talvez tenha sido o livro sobre o onanismo que o matou.
Quando acabei de lhe coser o abdómen, peguei no lápis e escrevi no livro dos mortos:
«Artur Portugal. Causa da morte: tuberculose e profunda desilusão».

Nuno Gomes Garcia estudou História e Arqueologia nas Faculdades de Letras do Porto e de Lisboa, centrando-se na História Medieval, do Renascimento e da Expansão Europeia.

Arqueólogo durante doze anos – especialista em Arqueologia Urbana – dedica-se atualmente à escrita de ficção e à consulta editorial.

Publicou o seu primeiro romance em 2012, O Soldado Sabino (Bloco Editora), seguido por O Dia em Que o Sol Se Apagou (Casa das Letras), em 2015. A sua mais recente obra, O Homem Domesticado (Casa das Letras), foi publicada este ano (2017).

Podem adquirir as obras do autor através do link: https://www.wook.pt/autor/nuno-gomes-garcia/2884947

Para conhecer um pouco mais sobre o autor: https://agrafr.fr/sh_events/os-escritores-da-agrafr-nuno-gomes-garcia/

 

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