A função das bibliotecas, por João Guerreiro

João de Sousa Guerreiro (1988), Doutor em Informação e Documentação é actualmente formador na área da nova gestão bibliotecária, gestor cultural e coordenador de diferentes workshops de aproximação e promoção da leitura de expressão contemporânea.

Como novo membro do Bibliotecas são Comunidades, apresenta-nos a sua visão sobre a função das bibliotecas.

Há pouco tempo num jantar de amigos, a maioria do âmbito da gestão hospitalar, perguntaram-me qual era a função das bibliotecas. Já não sei bem o que respondi. Falei de informação, de livros e leitura, de cultura e que era um espaço de encontro da comunidade. Ao terminar a conversa uma amiga disse-me: “Esperava algo mais concreto, como a função dos hospitais que é curar e prevenir a doença”.

Nos dias seguintes lá estava a pergunta (da função) a martelar, a dar sinal que queria resposta. Lembrava-me das aulas de gestão na Universidade de Coimbra, onde mais que uma vez nos enfrentámos a essa questão, sem alcançar porto seguro, concluindo com algumas reticências que as bibliotecas cumpriam várias funções. Vinham-me à memória textos científicos de caráter epistemológicos dos primeiros anos de curso, o livro de Umberto Eco, os últimos versos do poema “Liberdade” do Pessoa, a conferência de Zélia Parreira1 sobre a falta de uma lei de bibliotecas públicas ou como chegar lá (muito recomendável) e algumas teorias da gestão empresarial que utilizei na minha tese de doutoramento. Muita coisa para poucos resultados.

Voltei às guidelines, mas só encontrei uma e outra vez as mesmas expressões: “direitos básicos”, “importância vital”, “desenvolvimento humano”… uma série de argumentos generalistas, um somatório de funções consoante o gosto ou os interesses particulares de cada autor. Talvez o texto mais revelador foi o Manifesto IFLA/UNESCO sobre bibliotecas públicas de 1994, que diz na introdução: “A biblioteca pública – porta de acesso local ao conhecimento…”, ainda que isso do conhecimento seja por vezes coisa difícil de entender. Um pouco mais à frente, indica: “as coleções devem refletir as tendências atuais e a evolução da sociedade, bem como a memória da humanidade e o produto da sua imaginação”. (É curioso que este documento trate primeiro a coleção e só depois a missão das bibliotecas). Podemos encontrar aqui uma possível função das bibliotecas: permitir o acesso às diferentes produções humanas, independentemente do seu caráter literários, artístico, cientifico ou popular, o que poderíamos chamar de cultura em sentido lato. E lembro-me da Biblioteca Pública Álvaro de Campos de Tavira: o recital da “Ode Marítima” na voz de João Grosso, o curso de literatura e pensamento ocidental dado pelo Gonçalo M. Tavares e as agradáveis noites algarvias com poemas, musicas, contos…

Se entendemos as bibliotecas como espaços de acesso à cultura, temos de nos perguntar qual é a função da cultura. Neste afã recorro a uma entrevista de Brian Eno2, artista e músico experimental mais conhecido pela sua colaboração com os Talking Heads, onde afirma:

“Quando vou ver um filme, entro num jogo de representação (role playing game): em primeiro lugar, vejo a construção de um mundo. Se o filme é bom, entendo quais são as regras do universo, observo uma série de pessoas com determinadas características e vejo o que fazem, como se relacionam com esse mundo. Em suma, o que estou observando é um tipo de experimento proposto pela obra diante de mim; estou provando a ver como seria o mundo se fosse como o estão apresentando nesse momento”.

Posteriormente Eno afirma que esta capacidade de sair da nossa realidade para outras realidades permite-nos colaborar com outras pessoas (eis aqui a possível função!?), pois para colaborar, necessitamos “não apenas conhecer o nosso mundo, mas também o da outra pessoa tentando criar um novo mundo comum a ambos”. Em suma: permite compreender que o mundo é o somatório dos pontos de vista dos diferentes sujeitos, assim é essencial conhecê-los e colocarmo-nos no lugar do outro com o objetivo de criar uma sociedade mais aberta, no fundo mais humana. Além disso, permite-nos encontrar respostas criativas ou pelo menos outras respostas aos nossos problemas. Recordo, agora, que em 2015 no Congresso da BAD apresentei alguns dos resultados da minha tese, tentando explicar como se poderia utilizar a participação cidadã como elemento básico da gestão bibliotecária, método com grande implementação noutros países. Quando passamos às perguntas foram vários os bibliotecários que comentaram que o que proponha era muito difícil (senão inviável) aplicar nas bibliotecas, apesar dos exemplos que tinha mostrado. Não pretendo criticar os bibliotecários, pois muito lhes devo, senão exemplificar que algumas vezes estamos limitados pela realidade em que vivemos. Aproveito para agradecer aos meus companheiros de mesa, o Bruno Eiras que me animava a explicar-me melhor e a Manuela Barreto Nunes que resumiu de forma perfeita o que queria dizer (recorro ao meu caderno): “o que o João pretendia dizer é que temos de encontrar outras formas de ver o nosso mundo e que isso de ver também é uma técnica que temos de exercitar”.

Assim, sem todas as certezas, avanço uma possível função das bibliotecas: ser um espaço de acesso à cultura (num sentido lato) com a intenção de permitir aos cidadãos conhecer outras realidades e criar uma sociedade mais aberta. Ainda não é uma resposta exata, mas é um primeiro passo.

1 – Parreira, Zélia & Calixto, José António (2016) “Queremos uma lei de bibliotecas em Portugal?” 12º Congresso Nacional da BAD. Évora: 2015. Disponível em: https://www.bad.pt/publicacoes/index.php/congressosbad/article/view/1378

2 – Eno, Brian (1997) “A big theory of culture”. Disponível em: https://www.edge.org/conversation/brian_eno-a-big-theory-of-culture

Texto de João Guerreiro

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