Por supuesto: entrevista a Rui Zink

Rui Zink (Lisboa, 1961), escritor e professor no Departamento de Estudos Portugueses na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, exprime nesta pequena entrevista o seu ponto de vista sobre as bibliotecas.

Na sua opinião, o que não deveria ser uma biblioteca?

R. Z.: Há bibliotecas que me dão pena e geralmente ficam em países pobres ou longe dos centros de poder. Aquelas que só têm restos, livros que ninguém quer, muitas vezes livros que à partida não eram interessantes mas que foram despejados para essa biblioteca porque tinham esse nome mágico, «livros», embora façam o oposto do que se espera de um livro: ofuscam em vez de iluminar, aborrecem em vez de entusiasmar. Já vi envios de livros sem critério – enviados como medicamentos fora de prazo.

O seu contacto com as bibliotecas difere enquanto professor universitário, escritor e leitor comum? De que maneira?

R. Z.: Difere naturalmente. O indivíduo ou a profissão que tem influenciam o modo de ver as coisas. A biblioteca é uma multitude, um mundo, e mal iríamos se fizéssemos todos o mesmo percurso. Quando comecei a frequentar bibliotecas elas ainda tinham as marcas da ditadura. Lembro-me da biblioteca da Academia de Ciências, em Lisboa, onde em 1986 encontrei umas divertidas fichas de catálogo feitas por um bibliotecário com zelo salazarista.

Como poderão as bibliotecas (re)afirmar a sua relevância perante as suas comunidades?

R. Z.: Oferecendo variedade claramente estruturada. E não cedendo demasiado ao virtual. Uma biblioteca quer-se física, presente, com um edifício, salas para crianças, para estudiosos, para mais velhos. Assusta-me que as bibliotecas se tornem só «multimédia» e sejam na verdade videotecas com um nome mais pomposo. Uma biblioteca não pode andar atrás das pessoas, mas pode ser um pólo de actividades onde as pessoas se habituem a ir, porque encontram sempre algo que as maravilhe. Funcionar em rede é fundamental – e o bibliotecário deve ser um guia não só para os livros que tem mas para os que não tem. Saber para onde encaminhar o leitor que chega e nunca deixar ninguém sem resposta.

Aceitaria o desafio de escrever um microconto sobre o tema “Bibliotecas sem livros”?

Por supuesto

Fui a uma biblioteca sem livros, numa pequena cidade. Obviamente isto é um sonho. Eu não conhecia a cidade, mas nos sonhos isso não é problema. Não me perguntem por isso como sabia eu que era uma biblioteca, apesar de não ter livros. Ao centro de uma pequena sala, duas cadeiras. Numa estava um homem idoso, eu tinha a sensação de já o ter visto em algum lado. Uma foto, num jornal? Sentei-me na cadeira vazia. Tinha mesmo a sensação de conhecer o homem. Reparei que era cego, mas tinha os olhos abertos, sonhadores. Perguntei: Onde estamos? E ele respondeu, com um sotaque argentino: Numa biblioteca, por supuesto. Lembrei-me de quem ele era: Borges, o ficcionista, o erudito. Borges, a biblioteca viva. Recordei-o pela expressão, muito recorrente nos seus contos e ensaios: «Por supuesto». Perguntei: Mas, se não tem livros, como pode ser uma biblioteca? Ora, respondeu Borges, usa a memória dos livros que leste, por supuesto. Como assim? E Borges sorri: Não acabaste agora mesmo, apenas por causa dum pequeno vício de estilo, de te lembrares dos meus? Ah, fiz. Pois é. E, como contas num missal, vieram-me à memória o «c’est très grave, excessivement grave» dum personagem de Eça, o «Elias era homem de noites muitas e camas poucas» de Cardoso Pires. E, claro, o «E fugi dos frustrados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe». Do Luiz Pacheco, por supuesto.

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Entrevista por: Daniel Gonçalves (Bibliotecário) e David Gonçalves (Bibliotecário)

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